Os animais consomem combinações específicas de plantas, e isso provavelmente não acontece por acaso.

Orangotangos frequentemente comem plantas medicinais com propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e mesmo antimaláricas. Até aí, nenhuma surpresa – esses animais incluem muitas plantas em sua dieta, e algumas delas eventualmente terão características terapêuticas.

Uma nova pesquisa que analisou os padrões de consumo desses animais, no entanto, indica que esse consumo não parece ser aleatório: orangotangos foram observados comendo combinações específicas de plantas medicinais, em sequências específicas – um comportamento que, em outros animais, é associado à automedicação.

No estudo, publicado no periódico Scientific Reports, pesquisadores analisaram duas décadas de dados acumulados sobre a alimentação de orangotangos-de-bornéu ( Pongo pygmaeus ) que vivem em Kalimantan, a porção da ilha de Bornéu pertencente à Indonésia. As observações revelaram padrões no consumo de espécies medicinais como a Fibraurea tinctoria , que pode ajudar a combater doenças como malária, hepatite B, febre tifoide e icterícia.

Ainda não se sabe ao certo como esses animais aprendem as combinações terapêuticas, tampouco se eles consomem as plantas com a intenção de se automedicar. Para os pesquisadores, é possível que a dieta seja algo passado de geração para geração, ou mesmo um mero fruto do instinto.

"Nessa etapa, não podemos dizer que os orangotangos estão conscientemente se

‘diagnosticando’ da mesma forma que os humanos fazem", disse, em comunicado , Georgia Allen, que liderou o estudo como parte de seu mestrado na Universidade de Exeter, no Reino Unido. "No entanto, nossas descobertas sugerem que eles consomem seletivamente determinadas plantas com propriedades medicinais de maneiras que vão além da simples nutrição."

As observações analisadas pelo estudo foram feitas entre 2003 e 2023, no Parque Nacional de Sabangau. Em estudos passados , orangotangos fêmeas do local já haviam sido flagradas mastigando folhas da Dracaena cantleyi e aplicando a mistura com saliva em partes específicas do corpo – algo que poderia servir para aliviar dores nos músculos ou nas juntas, já que essa planta tem propriedades anti-inflamatórias.

No total, o banco de dados contava com mais de 12 mil registros dos animais se alimentando de diferentes partes das plantas, como frutos, folhas, raízes, flores e seivas. Para identificar quais das plantas consumidas tinham potencial medicinal, os pesquisadores recorreram ao conhecimento local das comunidades Dayak, uma etnia de Bornéu que reúne centenas de subgrupos distintos.

Os autores consultaram dois especialistas locais – Hendri Shagara e Iwan Shinyo, que constam como coautores do estudo –, além de registros etnomedicinais sobre mais de 200 espécies de plantas culturalmente significativas entre os Dayaks. No final, foram selecionadas nove espécies principais como foco da análise, que apareceram em diferentes

combinações medicinais ingeridas pelos animais.

As principais foram as espécies Fibraurea tinctoria , Alyxia , Willughbeia , Gnetum e Mezzettia parviflora . Com maior destaque, a Fibraurea tinctoria apareceu em todas as combinações identificadas. Essa espécie possui propriedades analgésicas, antitérmicas, anti-inflamatórias e diuréticas, e seu uso por orangotangos já foi observado no passado . Na ocasião, um orangotango de sumatra havia usado a planta em forma de pasta para tratar uma ferida em seu rosto.

"O que torna esses achados interessantes é que algumas espécies de plantas apareceram juntas na dieta dos orangotangos com uma frequência muito maior do que esperávamos aparecer por acaso. Sabe-se que várias dessas plantas contêm compostos associados a efeitos antimicrobianos, anti-inflamatórios ou cicatrizantes", afirma Allen.

"É importante destacar que muitas dessas plantas não constituem uma parte significativa da dieta dos orangotangos de modo geral, o que sugere que elas podem ser consumidas por benefícios específicos, e não como fontes alimentares do dia a dia", complementa.

No caso de outros primatas (além dos humanos), a automedicação já foi documentada em chimpanzés, que costumam, por exemplo, engolir folhas inteiras ou mastigar as medulas de plantas da espécie Vernonia amygdalina , provavelmente para se livrar de parasitas internos.