A ideia de Hong Kong no espaço pode parecer ficção científica, mas o futuro da cidade no cosmos está ganhando força. Com o primeiro astronauta de Hong Kong, Lai Ka-ying, prestes a embarcar na missão Shenzhou-23 para a estação espacial Tiangong, o debate sobre o potencial aeroespacial da cidade ganhou um novo fôlego. Especialistas reunidos no Global Prosperity Summit 2026 (GPS 2026) apontaram que Hong Kong tem tudo para se tornar uma peça-chave na nova era espacial.

Hong Kong: Um trampolim para o espaço?

Esqueça a ideia de Hong Kong construindo foguetes gigantes. A verdade é que a cidade brilha em outros aspectos. Em vez de competir diretamente com gigantes como China e Estados Unidos na fabricação de hardware espacial, Hong Kong pode se destacar em áreas de serviço e inovação. Pense em inteligência artificial embarcada em naves, integração de softwares complexos e aplicações de dados para sensoriamento remoto. É aí que a expertise da cidade em tecnologia e inovação pode realmente fazer a diferença.

O professor Bernard Foing, diretor executivo do International Lunar Exploration Working Group, vê um futuro promissor. Ele acredita que Hong Kong pode ir além, participando da criação de novas gerações de espaçonaves e explorando o espaço profundo. "Vocês, como diplomatas espaciais de Hong Kong, têm uma oportunidade única na Grande Baía, em colaboração com o continente, na Ásia-Pacífico e com o mundo, especialmente com a Europa", disse Foing.

Ele sugere que Hong Kong pode se tornar uma "arquiteta de missões espaciais de nova geração", especialmente no desenvolvimento de sistemas inteligentes de alto valor agregado. O ponto forte? A capacidade de criar soluções aqui e expandi-las globalmente, aproveitando a conectividade da cidade.

A necessidade de um "escritório espacial"

Uma ideia que ecoou forte no GPS 2026 foi a criação de um "escritório espacial" oficial em Hong Kong. Essa agência seria responsável por planejar e coordenar as estratégias do setor. Regina Ip, fundadora do GPS e presidente do conselho de governadores do Savantas Policy Institute, concorda: "Uma das minhas conclusões do summit é a urgência de Hong Kong estabelecer um escritório espacial, para que possa desempenhar um papel fundamental na economia espacial."

Segundo Ip, Hong Kong tem a base e a infraestrutura de serviços para apoiar o desenvolvimento aeroespacial. Isso inclui serviços financeiros, jurídicos, de arbitragem e até análise de dados de satélite. É um nicho onde a cidade já possui talentos e experiência, o que pode ser um grande diferencial.

O "novo paradigma espacial" e as vantagens de Hong Kong

A professora Gao Yang, diretora do Centre for AI Robotics in Space Sustainability da InnoHK, explica que a indústria espacial está passando por uma transformação. Estamos saindo de um modelo tradicional para um "novo paradigma espacial". Essa mudança abre portas para regiões que estão começando agora a desenvolver suas capacidades aeroespaciais.

Hong Kong pode aproveitar essa onda, combinando seus pontos fortes em pesquisa científica e inovação, especialmente em IA e robótica espacial. Mas não para por aí. A cidade também pode usar suas vantagens de longa data em direito e serviços financeiros, que são essenciais para um setor tão complexo e regulamentado.

Roger Tong, CEO da Asia Satellite Telecommunications Company, reforça a urgência. Ele aponta que, embora Hong Kong esteja um pouco atrasada na indústria espacial, a criação de um escritório espacial governamental é crucial. "É absolutamente importante que o governo tenha um escritório espacial para alinhar a pesquisa universitária, o desenvolvimento de talentos, a participação internacional e também lidar com a geopolítica", afirmou.

O potencial econômico e o plano de Pequim

O impacto econômico do setor espacial em Hong Kong pode ser significativo. Especialistas estimam que a indústria espacial possa contribuir com 2% a 3% do PIB da cidade nos próximos dois anos, caso o desenvolvimento continue em ritmo acelerado. Um relatório do Fórum Econômico Mundial de 2024 prevê que a economia espacial global, avaliada em US$ 630 bilhões em 2023, pode chegar a US$ 1,8 trilhão até 2035.

O governo de Hong Kong já está atento. A Unidade de Política do Chefe do Executivo realizou uma mesa redonda de alto nível sobre a economia espacial, reunindo acadêmicos, investidores e especialistas. O objetivo é definir o posicionamento estratégico e as oportunidades para a cidade.

Hong Kong também se beneficia dos planos ambiciosos de Pequim. A China, em seu 15º plano quinquenal, visa expandir sua indústria espacial e se consolidar como uma "potência espacial". O líder de Hong Kong, John Lee Ka-chiu, já destacou a importância do setor e as vantagens da cidade em seu discurso político no ano passado.

Para dar um impulso extra, o orçamento de fevereiro do Secretário das Finanças, Paul Chan Mo-po, incluiu medidas importantes. A bolsa de valores de Hong Kong (HKEX) foi solicitada a revisar os requisitos de listagem para empresas aeroespaciais, e um escritório especial está encarregado de atrair empresas estratégicas do setor para a cidade. Tudo indica que o futuro de Hong Kong no espaço não é mais uma questão de "se", mas de "quando" e "como".