No mundo da diplomacia internacional, às vezes, o que não é dito é tão importante quanto o que é falado. Foi mais ou menos assim que terminou o encontro entre o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping. Depois de dois dias de conversas em Pequim, Trump saiu dizendo que tinha fechado "acordos comerciais fantásticos, ótimos para os dois países". Xi, por sua vez, chamou a visita de "histórica e marcante". Parecia tudo lindo, não é?
Mas, se você for procurar por detalhes desses acordos grandiosos, vai ter uma surpresa: eles sumiram! Poucas informações concretas vieram à tona, deixando todo mundo se perguntando o que, de fato, foi combinado entre as duas maiores potências econômicas do mundo.
A pompa e a circunstância: um show de boas-vindas
Antes mesmo de as conversas começarem, ficou claro que a visita de Trump à China seria cheia de simbolismo. Ele chegou acompanhado de uma comitiva de peso: CEOs de grandes empresas de setores como agricultura, aviação, veículos elétricos e inteligência artificial. Era um recado claro de que os negócios estavam na pauta, mesmo com as tensões recentes entre os países.
A China caprichou na recepção. Trump foi recebido com honras militares, um banquete de gala e até um convite para conhecer o círculo íntimo do poder chinês, onde os líderes do Partido Comunista se reúnem. O presidente americano pareceu impressionado, tanto que convidou Xi Jinping para visitar a Casa Branca.
Essa troca de gentilezas e a retórica positiva criaram um clima de otimismo. Mas, quando o assunto é negócio, o otimismo às vezes não se traduz em acordos fechados na hora. E foi o que aconteceu aqui.
Promessas no ar, negócios sumidos
Trump deu uma entrevista para a Fox News dizendo que "a China vai investir centenas de bilhões de dólares" com os empresários que o acompanharam. Ele também mencionou que a China concordou em comprar 200 aviões da Boeing, o que seria a primeira grande compra de jatos comerciais americanos em quase uma década. Um número que, para analistas, parecia menor do que o esperado.
Só que, do lado chinês, a resposta foi mais… diplomática. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, não confirmou as compras e falou sobre a "essência das relações econômicas e comerciais China-EUA ser de benefício mútuo e cooperação ganha-ganha". Ele reforçou que ambos os lados deveriam trabalhar para implementar o "consenso importante" alcançado pelos líderes.
E a Boeing? A empresa foi contatada para comentar, mas o silêncio pairou no ar.
A trégua das tarifas: em aberto?
Havia também a expectativa sobre a "trégua tarifária" que estava prevista para expirar em novembro. Em outubro, Washington tinha suspendido o aumento de tarifas sobre produtos chineses, e Pequim, por sua vez, tinha aliviado restrições sobre terras raras, materiais essenciais para a fabricação de muitos produtos.
Um representante do comércio dos EUA, Jamieson Greer, que estava na China com Trump, disse à Bloomberg TV que uma decisão sobre estender ou não essa trégua ainda não tinha sido tomada. A Casa Branca mencionou que os líderes concordaram em criar um "Conselho de Comércio" para gerenciar a relação, evitando a necessidade de reabrir negociações sobre tarifas.
Scott Bessent, Secretário do Tesouro dos EUA, indicou que esperava progresso em um mecanismo para apoiar investimentos futuros. Mas, para que essas ideias saiam do papel, ainda há muito trabalho pela frente, como alertaram os próprios oficiais americanos.
Tecnologia e o futuro das chips
Um dos momentos mais comentados foi a descida de Elon Musk do avião Air Force One em Pequim. Ele apareceu antes mesmo de altos funcionários americanos, mostrando a importância da agenda econômica. O CEO da Tesla e o chefão da Nvidia, Jensen Huang, ficaram bem perto de Trump durante a cerimônia de boas-vindas e o banquete. A presença de Huang foi especialmente notável, já que ele nem estava na lista original da delegação. Isso alimentou especulações de que a inteligência artificial e o acesso a chips eram temas ainda mais centrais nas conversas do que se imaginava.
Tesla e Nvidia são empresas que dependem bastante da China. A Tesla tem sua fábrica em Xangai e muitos consumidores chineses. A Nvidia quer voltar a vender seus chips avançados para a China, algo que está proibido pelas atuais regras de exportação dos EUA, que visam limitar o acesso chinês a tecnologias de ponta em IA.
Mesmo com a importância do tema, não houve menção à IA nos comunicados oficiais sobre o encontro. Pequim, por outro lado, continua pressionando por mais acesso a tecnologia avançada e critica o que considera tentativas de frear seu desenvolvimento industrial.
Agronegócio e o mercado chinês
A guerra de tarifas do ano anterior afetou bastante os agricultores americanos, que querem vender mais soja, carne bovina e de aves para a China. Greer afirmou que acordos sobre compras chinesas de produtos agrícolas americanos foram "firmados". No entanto, o Ministério das Relações Exteriores da China só comentou que ambos os lados concordaram em manter relações comerciais estáveis e expandir a cooperação com base em "igualdade, respeito mútuo e benefício mútuo".
A Casa Branca também informou que as conversas tocaram na expansão do acesso de empresas americanas ao mercado chinês e no aumento de investimentos chineses em indústrias americanas.
Xi Jinping, por sua vez, disse aos líderes empresariais americanos que a "China abrirá ainda mais suas portas" e que as empresas americanas teriam "perspectivas mais amplas" no mercado chinês. Ele também defendeu a ampliação da cooperação em comércio, agricultura, saúde, turismo e segurança, chamando as relações bilaterais de "mutuamente benéficas" e geradoras de "resultados ganha-ganha".
A linha vermelha: Taiwan
Taiwan, a ilha autogovernada que a China considera parte de seu território, tem sido um dos pontos de atrito entre os dois países. Desta vez, Pequim ligou Taiwan à relação econômica mais ampla com os Estados Unidos.
De acordo com a versão chinesa, Xi Jinping afirmou que os dois lados concordaram com um "novo posicionamento" para as relações, baseado em "estabilidade estratégica construtiva". Mas ele fez o alerta que já conhecemos: Taiwan continua sendo a questão mais sensível. "A questão de Taiwan é a questão mais importante nas relações China-EUA", disse Xi. "Se mal administrada, as duas nações podem colidir ou até entrar em conflito." A ilha de Taiwan, claro, acompanhou tudo isso de perto.
Pontos de tensão não resolvidos: o Irã e o petróleo
A guerra contra o Irã e o bloqueio do Estreito de Ormuz também foram temas importantes. Trump esperava cooperação chinesa nesse conflito e no mercado de petróleo. Ele disse que Xi Jinping "gostaria de ver o Estreito de Ormuz aberto e disse que, se pudesse ajudar de alguma forma, gostaria de ajudar".
A China, por outro lado, foi mais vaga, pedindo "um cessar-fogo abrangente e duradouro" e que "as rotas de navegação fossem reabertas o mais rápido possível em resposta aos apelos da comunidade internacional". Os comunicados chineses indicaram que o Oriente Médio foi discutido, mas os detalhes foram limitados.
O conflito no Oriente Médio também afeta a economia chinesa, com a volatilidade dos preços do petróleo e interrupções nas rotas de suprimento aumentando os custos de importação da China e elevando os preços globalmente.
Trump convidou Xi para uma segunda cúpula na Casa Branca em setembro. As discussões entre os dois países devem continuar até lá, na esperança de que as duas maiores economias do mundo consigam, finalmente, entregar um avanço comercial importante que ficou faltando desta vez.



